Os efeitos dos antarayas

Este sutra descreve os quatro sintomas que acompanham os antarāyas apresentados no sutra 1.30. Esses sintomas, sofrimento psicoemocional, depressão, ansiedade e respiração irregular estão intimamente relacionados à resposta crônica ao estresse e à uma ampla gama de doenças psicossomáticas.

O estresse é a carga física e psicoemocional colocada no organismo humano necessária para alcançar ou para fazer qualquer coisa. A resposta ao estresse gera energia para atender a uma necessidade percebida, recrutando recursos de muitos sistemas do corpo através da ativação do sistema nervoso simpático.

Quando a necessidade percebida é atendida, descansamos e regeneramos através da ativação do sistema nervoso parassimpático. Quando esse equilíbrio autonômico é perdido, a resposta ao estresse torna-se crônica, resultando em sobrecarga para todos os sistemas do corpo, criando condições para doenças físicas e psicológicas.

Da perspectiva do Yoga, o estresse crônico é inevitável no nível da personalidade, porque estamos buscando realização e felicidade no reino material que nunca pode nos dar o que buscamos.

Prakṛti, a realidade manifesta, nunca satisfará completamente as nossas necessidades, porque não é o destino final, apenas um campo de aprendizado que leva ao despertar de nosso verdadeiro Ser.

Tentar encontrar a felicidade e a paz definitivas onde não podem ser encontradas leva a esforços cada vez mais fortes, exigindo maiores níveis de energia e, posteriormente, estresse crônico e doenças associadas.

Por outro lado, quando nos alinhamos com o nosso verdadeiro Ser, a equanimidade que experimentamos nos permite lidar objetivamente com os desafios, conservando energia de maneira ideal, mantendo assim os níveis de estresse baixos e permitindo uma maior apreciação pelas bênçãos da vida diária.

Cada um desses sintomas dos antarāyas também é uma oportunidade de praticar pratypaksha bhavana, integrando-se em suas qualidades positivas opostas.

  • dukha engloba dor e sofrimento físico e psicoemocional. É o resultado inevitável da busca pela realização final onde não pode ser encontrada. No Yoga, o sofrimento tem três nomenclaturas principais. Adhibhautika significa pertencente aos bhutas ou seres vivos; é a dor causada por outros. Adhidaivika significa pertencente à daiva ou destino, às forças invisíveis ou divinas, incluindo desastres naturais. Ādhyātmika significa literalmente ātma ou alma e inclui o sofrimento causado por nossa própria mente através do fracasso em reconhecer a nós mesmos como espírito. Através da prática de Yoga, todas as formas de sofrimento são gradualmente transformadas em sukha, facilidade, através do reconhecimento de que a personalidade com seus desejos e necessidades não é o fim da jornada, mas apenas um veículo para se alinhar com o nosso verdadeiro Ser.
  • daurmanasya, que literalmente significa “de uma mente ruim”, refere-se à depressão, desespero e angústia. Da perspectiva do Yoga, esse tipo de sofrimento psicoemocional é o resultado de buscar a felicidade exclusivamente no nível da personalidade, onde não pode ser encontrada. Através da prática de Yoga, descobrimos recursos internos para a felicidade e a paz. Portanto, não é de surpreender que o Yoga seja um dos tratamentos mais eficazes para a depressão. Através do Yoga, o desespero e a angústia são gradualmente transformados em saumanasya, uma mente de bondade, paz e harmonia que reflete a natureza de nosso verdadeiro Ser.
  • Aṅgamejayatva, tremor dos membros, está relacionado à ansiedade e é um sintoma da resposta crônica ao estresse. A ansiedade está relacionada ao medo da perda e do abandono, frequentemente associado à falta de cuidado, acalento e segurança na infância. O Yoga apoia a cura da ansiedade, mostrando-nos segurança e apoio que surgem de nosso ser interior e gradualmente reduzem o medo e a insegurança no nível da personalidade. Através dessa prática, o medo e a ansiedade são transformados em shanti, satisfação interior e paz.
  • śvāsapraśvāsāḥ, respiração irregular e inconsciente, é um sintoma da resposta ao estresse no qual a respiração se move para a parte superior do tórax e se torna rápida e superficial de modo a absorver a quantidade máxima de energia para atender às necessidades percebidas. Isso funciona bem para emergências de curto prazo, mas quando o estresse se torna crônico, toda a nossa vida é percebida como uma emergência, e a respiração irregular e superficial torna-se crônica. Esse padrão de respiração, por sua vez, perpetua o ciclo de estresse crônico. Torna-se um padrão de respiração que sustenta a resposta ao estresse crônico e a subsequente doença da mente e do corpo. Através da prática de Yoga em geral e do pranayama em particular, a respiração irregular é transformada em pranasiddhi, a capacidade de canalizar o fluxo do prana da respiração para cultivar equilíbrio e equanimidade.

Reflexão:

Até que ponto você sentiu esses quatro sintomas de estresse crônico antes de começar a praticar Yoga? Quais ferramentas e técnicas de Yoga foram mais úteis para transformar cada um dos sintomas em seus opostos?

 

*artigo extraído do livro Yoga Sutras na Prática, de Joseph Le Page

Yoga e o coronavírus

Segundo a filosofia do Yoga, prakriti, o mundo material, existe com o objetivo de reconhecer purusha, o nosso verdadeiro Ser. Em outras palavras, o mundo é um campo de aprendizado que existe para o desabrochar de nosso verdadeiro Ser como propósito e destino de nossa vida. Se, como diz o Yoga, o mundo é um campo de aprendizado cujo objetivo é o despertar espiritual, quais são as lições a serem aprendidas com a atual pandemia do coronavírus? Embora reconheça plenamente a gravidade da situação e o medo e a ansiedade compreensíveis que o planeta inteiro está experimentando, também há algo de positivo que pode advir dela; existe também um ensinamento?

Refletindo sobre isso, vários temas se apresentam:

Fragilidade – Os sistemas sociais, políticos e econômicos que sustentam a vida dos seres humanos, incluindo governos, sistemas de saúde e empresas, esforçam-se por apresentar uma imagem de permanência, estabilidade e até invencibilidade. A crise atual nos lembra a nossa fragilidade e vulnerabilidade fundamentais. Este vírus é uma tragédia humana, especialmente porque tira de nós aqueles que devem ser mais valorizados, os fracos e os idosos. Comparado a outras pandemias no passado, no entanto, esse vírus não está entre os mais ameaçadores à vida. Mesmo assim, está além da capacidade de muitos governos e sistemas de saúde de lidar com isso de maneira eficaz. Do ponto de vista do Yoga, essa fragilidade é inerente ao nosso meio, que está sujeito a constantes mudanças. Essa impermanência inerentes a todas as coisas criadas são um lembrete vívido de que essa vida não é para ser um fim, mas apenas um meio para o reconhecimento de nosso verdadeiro Ser, uma fonte de força interior, de quietude e de paz, que está sempre presente, independente do que esteja ocorrendo em nosso entorno.

Interconectividade – Houve pandemias muito piores no passado, mas o mundo nunca foi tão interconectado e interdependente quanto é hoje. No passado, crises aconteciam em outros países, lugares distantes, sem relação direta com as nossas vidas. Hoje, porém, a mutação de um vírus em um mercado de animais silvestres na China quase instantaneamente se torna uma crise para todo o planeta, não apenas do ponto de vista da saúde, mas também por todas as implicações econômicas de larga escala. O Yoga nos ensina a consciência de nossa interconectividade, de que todo pensamento e ação são como pedras jogadas em um lago cujas ondas se espalham infinitamente. Portanto, o Yoga ensina a consciência em todas as nossas atividades com uma compreensão de como elas afetarão os outros e a sociedade em geral. O Yoga ensina a interconectividade de todas as coisas, de modo que nós, como espécie, não podemos mais nos dar ao luxo de agir de maneira individual ou egoísta.

Respeito à natureza – É um fato conhecido que o coronavírus pode se espalhar a partir de criações impróprias e não naturais de espécies selvagens, mas o que é menos conhecido é que esse tipo de transmissão é mais provável quando essas espécies estão sob estresse. Esse vírus se originou na China, mas o número de lugares no planeta em que a natureza está ameaçada e sob estresse é numeroso e aumenta exponencialmente. Não podemos nos separar dos ciclos e ritmos da natureza cuja essência é equilíbrio e harmonia; não podemos esperar que a natureza seja paciente conosco indefinidamente, mesmo que nosso abuso do mundo natural continue incessantemente. Este vírus não pode ser visto separadamente do desmatamento e do aquecimento global. A natureza é Gaia, uma entidade viva cujo cuidado e equilíbrio são agora uma necessidade absoluta para a sobrevivência de nossa espécie.

Simplicidade – Muitos de nós ao redor do planeta agora vivem sob restrições nas quais apenas serviços essenciais, como saúde, alimentos e medicamentos, estão funcionando. Com a maioria de nossos comércios fechados, temos a possibilidade de ver quantos de nossos desejos e necessidades realmente vão além do que é absolutamente necessário. O Yoga nos diz que a busca pela satisfação através das coisas materiais nunca será suficiente, porque o mundo material não era para ser um fim em si mesmo, mas apenas um meio de descobrir o contentamento intrínseco de nosso verdadeiro Ser. O Yoga também ensina que buscamos satisfação e felicidade em nosso entorno de maneira tão compulsiva, porque o prazer que experimentamos através das coisas materiais é um vislumbre da completa paz de nosso verdadeiro Ser que, de alguma forma, sabemos que está sempre presente e à espera. Talvez este seja um momento para refletir sobre nossos verdadeiros desejos, necessidades e prioridades, nos perguntando se a felicidade que buscamos está nas coisas materiais ou se já está realmente presente em nosso próprio Ser, mais próximo de nós que a nossa própria respiração, esperando apenas para ser reconhecido claramente.

Apreciação – Neste momento de crise, muitos estão separados das coisas que estão acostumados a fazer, coisas que proporcionam prazer e conforto, e mesmo aquelas que apoiam nosso crescimento e despertar espiritual. Algumas são coisas simples, como encontrar-se com amigos e familiares, ir a uma aula de Yoga ou outra atividade em grupo, passear no parque ou ir à praia. Talvez esse momento de distanciamento social seja um tempo para uma apreciação mais profunda dos bençoes que recebemos em cada momento da vida diária. Essa pandemia nos lembra que até a nossa respiração é um presente e que devemos viver e respirar a cada momento, mesmo os mais desafiantes, com muita gratidão e apreciação.

Autonomia e liberdade – De acordo com o Yoga, prakriti existe para purusha; toda a criação é um campo de aprendizado cujo propósito é despertar para o nosso verdadeiro Ser. O corpo é um veículo precioso para essa jornada e, em tempos de crise, é normal que a sobrevivência, tanto física quanto econômica, se torne prioridade. E embora este seja um momento para se concentrar em manter-se fisicamente saudável, também deve ser um tempo para se concentrar no objetivo e propósito finais deste corpo, que, da perspectiva do Yoga, é conhecer o verdadeiro Ser além de qualquer dúvida, teoria e questionamento, através do despertar espiritual. E enquanto o ser físico é finito, o verdadeiro Eu é infinito e imortal; é quem nós somos na realidade, quem sempre fomos e quem sempre seremos. Mesmo que valorizemos o que é finito neste momento de crise, este também é um momento para também priorizar ao que é imortal, infinito, e sempre esperando para ser visto, o nosso Ser Real, através das práticas de Yoga e Meditação,

História e contexto da Yoga Integrativa

Yoga para a saúde da pessoa como um todo

O movimento em busca de saúde para corpo-mente estava ganhando aceitação no mundo, principalmente pela compreensão de que os estados positivos ou negativos da mente afetam realmente a saúde e a cura. Claro que isso é algo que o Yoga já havia compreendido há milhares de anos. O Yoga Vashistha, datado do século V, apresenta isto de forma clara e simples: “a boa saúde vem de bons pensamentos e a doença é o efeito do pensamento negativo”. Portanto, embora a compreensão da saúde corpo-mente não seja algo novo, a pesquisa científica sobre os efeitos das atitudes e do estilo de vida na saúde é relativamente nova.  A Yogaterapia Integrativa, fundada por Joseph Le Page em 1993, foi o primeiro programa de treinamento a explorar a interface do Yoga e a saúde e cura do corpo-mente. A primeira Formação em Yogaterapia Integrativa no Brasil foi realizada em 1996.

Os alunos deste programa eram essencialmente professores de Yoga que queriam entender a dimensão corpo-mente e incluí-la em seu trabalho, tanto em grupos terapêuticos quanto em sessões individuais de Yogaterapia. O que percebemos foi que os professores de Yoga que ingressavam em nossa Formação em Yogaterapia careciam de conhecimentos em muitas áreas de teoria e prática do Yoga, fundamentais  para estudos mais avançados. Alguns não tinham um entendimento técnico das posturas de Yoga; outros não tinham uma compreensão do contexto espiritual da prática do Yoga e muitos não tinham habilidades de ensino e comunicação. Joseph Le Page e Lilian Aboim criaram, então, a Formação de Professores de Yoga Integrativa para atender à necessidade de formar um professor de Yoga completamente preparado para cuidar da saúde da pessoa como um todo. Este abrangente programa de treinamento de professores de Yoga é oferecido no Centro de Montanha Encantada, em Garopaba (SC), desde 2003.

Existem vários princípios essenciais que formam a base da Formação de Professores de Yoga Integrativa e que a tornam única:

Yoga para a saúde da pessoa como um todo – As aulas de Yoga Integrativa oferecem uma abordagem equilibrada para a saúde em todas as dimensões da pessoa: física, energética, psicoemocional e espiritual.

Posturas de Yoga dentro do contexto geral do desenvolvimento humano – As poses de Yoga são veículos poderosos para a saúde e a cura e nossos alunos desenvolvem um profundo domínio sobre elas, não como fins em si mesmos, mas como meios para se tornar um Ser humano pleno e completo.

Experienciar os benefícios da aula de Yoga na vida diária – As habilidades e insights que os alunos obtêm sobre si mesmos e suas vidas na Yoga Integrativa permitem que eles usufruem dos benefícios do Yoga fora do tapetinho e os integrem à vida diária como um senso aprimorado de contentamento, paz interior, realização e propósito.

Integração de todas as facetas do Yoga na aula de Yoga – A saúde e a plenitude cultivadas pela Yoga Integrativa são apoiadas por uma integração equilibrada de todas as ferramentas e técnicas do Hatha Yoga em cada aula, incluindo asana, pranayama, mudrás, afirmações, relaxamento e meditação.

Aulas de Yoga apropriadas para diferentes níveis – Os professores de Yoga Integrativa desenvolvem a habilidade de ajustar as aulas de Yoga às necessidades individuais, para que diferentes níveis possam praticar efetivamente na mesma classe.

Aulas com temas que dão foco e significado para cada experiência – Esses temas podem estar relacionados a áreas específicas da prática, como desenvolvimento de força ou equilíbrio, e também podem ser usados ​​para cultivar qualidades específicas, como autoestima, paz interior e clareza. Essas qualidades são, às vezes, apoiadas por mudrás e afirmações que permitem uma integração mais completa.

Aprendizado experiencial – Durante o programa de formação de professores, todas as disciplinas, incluindo filosofia do Yoga, anatomia e fisiologia, são ensinadas experimentalmente, fazendo e sentindo na mente e no corpo, em vez de intelectualmente ou teoricamente, permitindo que sejam integradas completamente. Os professores podem então aplicar essa abordagem experiencial em suas próprias aulas.

Professores formados completamente prontos para ensinar – Devido à natureza profunda do programa e uma metodologia de dez etapas que cobre todos os aspectos da pedagogia do Yoga, desde a recepção dos alunos até o relaxamento final, os novos professores de Yoga Integrativa concluem o curso totalmente preparados para oferecer aulas de Yoga para o público. Cada novo professor conduz uma aula completa para um pequeno grupo de colegas antes da conclusão do programa de formação.

Material de apoio – A editora Yoga Integrativa oferece uma ampla gama de materiais de apoio para o estudo do Yoga, incluindo o Guia Prático de Posturas de Yoga (Guippy) e o livro Mudrás para Cura e Transformação. Estes materiais estão entre os textos mais utilizados em programas de formação de professores nos EUA e no Brasil. Novos produtos estão sendo constantemente desenvolvidos e introduzidos.

Foco no aluno e não no professor – Algumas formas de Hatha Yoga são hierárquicas e dogmáticas, com foco na organização e em um guru ou professor. A Yoga Integrativa foca nas necessidades individuais únicas de cada aluno como um meio para a saúde e cura da pessoa como um todo, sem qualquer forma de hierarquia religiosa.

Cada professor de Yoga é único – Algumas formas de Hatha Yoga ensinam uma sequência ou sequências inalteráveis e o aluno precisa se moldar a essa metodologia. Na Yoga Integrativa, oferecemos uma base firme sobre todos os aspectos do ensino de Yoga, o que permite que cada um de nossos professores desenvolva a sua própria abordagem criativa e única do ensino de Yoga, com base em seus interesses e nas necessidades de seus alunos. Esta abordagem individualizada também reduz drasticamente a possibilidade de lesão.

Criatividade e diversão nas aulas de Yoga – Os professores de Yoga Integrativa aprendem uma ampla gama de técnicas especiais, desde movimentos somáticos a Yoga em dupla, uso de props e como usar as fichas do Guippy e os mudrás para tornar as suas aulas uma experiência de aprendizado criativa e cativante de modo que o seu aluno retorne continuamente.

Autoconhecimento – O foco global em todos os aspectos do Yoga, apoiados pela metodologia experiencial, permite que professores e alunos tenham uma experiência vivida da essência do Yoga, cultivando um crescente senso de liberdade, autonomia, paz interior e uma compreensão do seu verdadeiro propósito de vida.

Unificando as Definições de Yoga

O significado do Yoga não cabe em uma única definição, mas sim em várias definições interrelacionadas, que se unem para formar uma visão do Yoga muito além de palavras e conceitos. Juntas, essas definições formam uma mandala, um círculo de conhecimento, que inclui e transcende os vários tons de significados do Yoga, e que nos guia à sua essência: a verdade de nosso próprio Ser que é simultaneamente a verdade de toda a Criação, a qual palavras podem até explicar, mas jamais conseguirão expressar completamente.

A raiz sânscrita da palavra Yoga é yuj, que significa “unir-se”. Existem muitos cognatos para a palavra Yoga nas línguas indo-européias, como “yoke”, em inglês, ou “conjugar”, no português, que também significam “unir”. O conceito de Yoga como união engloba uma ampla gama de significados, cada um dos quais contribui para o entendimento do Yoga como um todo. O significado final de Yoga como união é a junção da alma individual, Atman, com o Eu Universal, Brahman, que é a compreensão de que o objetivo primordial da jornada de vida de cada indivíduo é a união com o seu Ser Real, que é ao mesmo tempo o Ser Universal e a Fonte da Criação.

Começamos essa jornada de união no nível mais palpável: a união com o nosso próprio corpo. Embora nos relacionemos com o corpo como “eu” e “meu”, nosso relacionamento muitas vezes carece de profundidade ou intimidade real.

De fato, nosso corpo é frequentemente tratado como um objeto ligeiramente estranho, usado pela personalidade cotidiana em sua busca por sobrevivência, reprodução e hierarquia social. Através do Yoga em geral, e através das técnicas do Hatha Yoga em particular, nos unimos completamente ao nosso corpo, otimizando o seu funcionamento e transformando-o em um veículo apropriado para a jornada de união com o nosso Ser Real.

Essa união com o corpo serve como base para nos unirmos à nossa respiração, através do pranayama, a ciência da respiração yoguica. À medida que desenvolvemos o domínio sobre a nossa respiração, equilibramos o sistema nervoso, reduzindo estresse e cultivando equanimidade, o que serve como um alicerce para a nossa jornada de união com o nosso Ser Real.

A união com a respiração naturalmente desperta a consciência para o nosso corpo de energia sutil, uma dimensão expansiva do nosso ser que transcende completamente nossos pensamentos, sentimentos e crenças cotidianas, afrouxando, assim, a nossa rígida identificação com a personalidade.

A união com a nossa respiração e com o nosso corpo de energia sutil cultiva uma expansividade em nosso ser psicoemocional, que nos permite olhar para ele com mais abertura e objetividade. Por fim, passamos a enxergar a mente cotidiana, manas, não mais como a nossa verdadeira identidade, mas como um lugar onde os padrões limitantes de pensamentos, sentimentos e crenças habitam.

O primeiro passo para a liberação desses condicionamentos é nos unirmos a eles profundamente de modo a tomar consciência de como eles causam sofrimento e limitação. Através de uma maior intimidade e consciência do nosso ser psicoemocional, vemos que a personalidade é, na verdade, um composto de camadas de condicionamentos na forma de instintos evolutivos de sobrevivência e influências da cultura, sociedade e família, todos distintos do nosso Ser Real. 

Esse gradual reconhecimento da natureza limitante dos condicionamentos da personalidade naturalmente desperta a nossa mente superior, buddhi, que nos permite testemunhar pensamentos, sentimentos e crenças limitantes sem reprimir, reagir inconscientemente ou se identificar com eles como “eu” e “meu”.

À medida que nos unimos mais profundamente com a mente superior, o testemunho torna-se espontâneo e natural, e gradualmente vamos liberando as nossas tendências de negatividade e hostilidade, e os sentimentos de inadequação ou incapacidade. Essa união com a nossa mente superior através do testemunho consciente é especialmente importante nos momentos em que experienciamos perda, dor e sofrimento, uma vez que, por trás de toda experiência de limitação, sempre existe a possibilidade de enxergar uma crença limitante que é a causa da dor psicoemocional. 

Através da consciência e liberação de pensamentos, sentimentos e crenças limitantes, um espaço é criado para a compreensão do significado de Yoga como união no seu senso mais completo de união com o Ser Real. Esta união não é algo que criamos ou conquistamos, mas simplesmente é o enxergar claramente todas as crenças limitantes, confusões, falsas percepções e condicionamentos. Este Ser Real é a pura consciência, inerentemente pleno, o Ser Universal no coração de toda a criação, cuja verdadeira essência é união.

A natureza do Ser Universal e os meios para atingir essa união são esclarecidos por outras definições do Yoga, encontradas no Bhagavad Gita. A primeira destas está no Bhagavad Gita 2.50:

 

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As Emoções e o Yoga

O relaxamento e a respiração fluida que aprendemos na prática de Yoga nos ensinam a cultivar um estado de equilíbrio interior que nos permite que nos tornemos testemunha de nossas emoções

As emoções são produzidas pelo nosso sistema nervoso para fornecer uma experiência qualitativa de nosso meio ambiente e de nossas interações. Elas nos dizem se o mundo que nos rodeia é bom ou ruim. As emoções estão intimamente relacionadas aos pensamentos, mas são experienciadas no corpo. Essa experiência corpórea pode ser um mecanismo de sobrevivência. Nosso corpo está equipado com inúmeros sistemas de alarme para nos manter seguros, mas ao nível do pensamento isto pode ter sido negligenciado. Os alarmes embutidos nas sensações do corpo são mais propensos a chamar a nossa atenção. O estresse psicoemocional acontece quando o alarme emocional é desencadeado continuamente e, assim, nem a mente, nem o corpo conseguem lidar com a demanda. É a consequência de uma sociedade em que as oportunidades e desafios são cada vez mais complexos. O resultado é a doença relacionada ao estresse e a Yogaterapia é uma resposta apropriada.

O Yoga é uma terapia psicoespiritual completa. Ele apresenta uma teoria da mente, uma maneira de trabalhar com ela e um resultado final na forma de despertar espiritual. Do ponto de vista do Yoga, a tendência de ver a vida como dolorosa e problemática está na mente e a solução também está na mente.

No Yoga, as emoções são extensões da mente, manas, experimentadas no corpo. Quando a mente obedece aos impulsos evolutivos básicos de sobrevivência, segurança, procriação e hierarquia social, as emoções que surgem são o resultado natural disto. Quando as prioridades evolutivas mudam e a intenção é a transformação, nosso perfil emocional também muda. As chamadas emoções negativas, como medo e raiva, estão intimamente relacionadas ao sofrimento psicoemocional. As emoções positivas que dependem das experiências externas acabam também se tornando problemáticas. Buscamos reproduzi-las, o que nem sempre é bem-sucedido, e isto acaba também se tornando uma fonte de sofrimento.

A resposta de relaxamento, cultivada pela prática de Yoga, não é nosso verdadeiro ser, nosso svarupa, porque ainda está sujeito aos gunas. Mas, ela serve como um portal para vislumbrar o nosso ser autêntico.

Alinhados com nosso verdadeiro ser, percebemos que as emoções refletem os condicionamentos e que não estamos vinculados a nenhum deles permanentemente. É possível que o que chamamos de iluminação seja apenas o próximo passo evolutivo, em que providenciamos todas as nossas necessidades e segurança básicas, mas sem sofrimento emocional. Talvez, através de uma maior conscientização, possamos utilizar nossas emoções para sentir nosso meio ambiente, mas reagindo de forma objetiva e inteligente, sem sofrimento. Isso significa que podemos usar nossas emoções ao invés de sermos usados por elas!