Os efeitos dos antarayas

Este sutra descreve os quatro sintomas que acompanham os antarāyas apresentados no sutra 1.30. Esses sintomas, sofrimento psicoemocional, depressão, ansiedade e respiração irregular estão intimamente relacionados à resposta crônica ao estresse e à uma ampla gama de doenças psicossomáticas.

O estresse é a carga física e psicoemocional colocada no organismo humano necessária para alcançar ou para fazer qualquer coisa. A resposta ao estresse gera energia para atender a uma necessidade percebida, recrutando recursos de muitos sistemas do corpo através da ativação do sistema nervoso simpático.

Quando a necessidade percebida é atendida, descansamos e regeneramos através da ativação do sistema nervoso parassimpático. Quando esse equilíbrio autonômico é perdido, a resposta ao estresse torna-se crônica, resultando em sobrecarga para todos os sistemas do corpo, criando condições para doenças físicas e psicológicas.

Da perspectiva do Yoga, o estresse crônico é inevitável no nível da personalidade, porque estamos buscando realização e felicidade no reino material que nunca pode nos dar o que buscamos.

Prakṛti, a realidade manifesta, nunca satisfará completamente as nossas necessidades, porque não é o destino final, apenas um campo de aprendizado que leva ao despertar de nosso verdadeiro Ser.

Tentar encontrar a felicidade e a paz definitivas onde não podem ser encontradas leva a esforços cada vez mais fortes, exigindo maiores níveis de energia e, posteriormente, estresse crônico e doenças associadas.

Por outro lado, quando nos alinhamos com o nosso verdadeiro Ser, a equanimidade que experimentamos nos permite lidar objetivamente com os desafios, conservando energia de maneira ideal, mantendo assim os níveis de estresse baixos e permitindo uma maior apreciação pelas bênçãos da vida diária.

Cada um desses sintomas dos antarāyas também é uma oportunidade de praticar pratypaksha bhavana, integrando-se em suas qualidades positivas opostas.

  • dukha engloba dor e sofrimento físico e psicoemocional. É o resultado inevitável da busca pela realização final onde não pode ser encontrada. No Yoga, o sofrimento tem três nomenclaturas principais. Adhibhautika significa pertencente aos bhutas ou seres vivos; é a dor causada por outros. Adhidaivika significa pertencente à daiva ou destino, às forças invisíveis ou divinas, incluindo desastres naturais. Ādhyātmika significa literalmente ātma ou alma e inclui o sofrimento causado por nossa própria mente através do fracasso em reconhecer a nós mesmos como espírito. Através da prática de Yoga, todas as formas de sofrimento são gradualmente transformadas em sukha, facilidade, através do reconhecimento de que a personalidade com seus desejos e necessidades não é o fim da jornada, mas apenas um veículo para se alinhar com o nosso verdadeiro Ser.
  • daurmanasya, que literalmente significa “de uma mente ruim”, refere-se à depressão, desespero e angústia. Da perspectiva do Yoga, esse tipo de sofrimento psicoemocional é o resultado de buscar a felicidade exclusivamente no nível da personalidade, onde não pode ser encontrada. Através da prática de Yoga, descobrimos recursos internos para a felicidade e a paz. Portanto, não é de surpreender que o Yoga seja um dos tratamentos mais eficazes para a depressão. Através do Yoga, o desespero e a angústia são gradualmente transformados em saumanasya, uma mente de bondade, paz e harmonia que reflete a natureza de nosso verdadeiro Ser.
  • Aṅgamejayatva, tremor dos membros, está relacionado à ansiedade e é um sintoma da resposta crônica ao estresse. A ansiedade está relacionada ao medo da perda e do abandono, frequentemente associado à falta de cuidado, acalento e segurança na infância. O Yoga apoia a cura da ansiedade, mostrando-nos segurança e apoio que surgem de nosso ser interior e gradualmente reduzem o medo e a insegurança no nível da personalidade. Através dessa prática, o medo e a ansiedade são transformados em shanti, satisfação interior e paz.
  • śvāsapraśvāsāḥ, respiração irregular e inconsciente, é um sintoma da resposta ao estresse no qual a respiração se move para a parte superior do tórax e se torna rápida e superficial de modo a absorver a quantidade máxima de energia para atender às necessidades percebidas. Isso funciona bem para emergências de curto prazo, mas quando o estresse se torna crônico, toda a nossa vida é percebida como uma emergência, e a respiração irregular e superficial torna-se crônica. Esse padrão de respiração, por sua vez, perpetua o ciclo de estresse crônico. Torna-se um padrão de respiração que sustenta a resposta ao estresse crônico e a subsequente doença da mente e do corpo. Através da prática de Yoga em geral e do pranayama em particular, a respiração irregular é transformada em pranasiddhi, a capacidade de canalizar o fluxo do prana da respiração para cultivar equilíbrio e equanimidade.

Reflexão:

Até que ponto você sentiu esses quatro sintomas de estresse crônico antes de começar a praticar Yoga? Quais ferramentas e técnicas de Yoga foram mais úteis para transformar cada um dos sintomas em seus opostos?

 

*artigo extraído do livro Yoga Sutras na Prática, de Joseph Le Page

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